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A coragem silenciosa da maternidade: falha, reparo e liderança em movimento

Se a liderança que celebramos no trabalho é a capacidade de aprender em tempo real, o que aconteceria se reconhecêssemos que muitas mulheres já exercem essa competência todos os dias ao cuidar de um sujeito em desenvolvimento?

A maternidade é muito mais do que algo que mulheres que têm filhos fazem. Trata‑se de um processo de aprendizagem adulta de enorme complexidade, que exige atualização diária e refinamento contínuo da percepção. O que está em jogo no exercício da função materna não é um projeto estático, mas um sujeito em desenvolvimento. Uma criança, com toda a imprevisibilidade e singularidade que compõem a condição humana. É um trabalho que se reinventa a cada dia.

Filhos fazem parte da diversidade humana naquilo que ela tem de mais amplo. Não são versões reduzidas de adultos, nem extensões biográficas ou psicológicas dos pais. São sujeitos em construção, que se transformam mais rapidamente do que qualquer ambiente institucional consegue acompanhar. É por isso que a maternidade não se estabiliza: ela exige leitura constante, abertura ao desconhecido e disposição para ajustar o próprio repertório.

Uma mãe toma decisões durante todo o dia: como alimentar, como acolher, como interpretar um silêncio, como sustentar um limite. São decisões tomadas sem garantias, sem métricas objetivas e sem validação imediata. E, a cada dia, ela atravessa um reinício que não é mera repetição nem terreno totalmente desconhecido. Um recomeço determinado pela transformação contínua da própria criança. Criar filhos envolve múltiplas métricas simultâneas: internas, culturais, sociais e aquelas que a própria criança impõe, ainda que silenciosamente. Quando a mãe acredita ter “dominado” a tarefa, o crescimento do filho desfaz a fantasia. A maternidade não admite zona de conforto.

O cuidado materno é exigente porque articula duas histórias vivas: a da mãe e a da criança. Enquanto a criança se desenvolve, a mãe revisita o próprio passado, negocia limites internos, elabora ambivalências e reorganiza o próprio corpo. É um trabalho que envolve observação fina, estudo, construção de ambiente e responsabilização cotidiana. Nada disso é automático. Trata‑se de um processo humano sofisticado, que opera em camadas emocionais, simbólicas e práticas.

Criar um filho exige um tipo de coragem que não é heroica, mas cotidiana. Coragem para admitir o não saber, para sustentar frustrações próprias e alheias, para tolerar a exposição inevitável de quem educa, para ser vista nos acertos e nos erros. “Maternar” implica atravessar vulnerabilidade continuamente. Toda mãe dedicada conhece esse lugar em que é preciso seguir adiante mesmo quando o dia anterior aponta excessos, omissões ou escolhas que hoje seriam diferentes. Trata‑se de uma ética interna que convoca a reparar, ajustar e persistir. E, nesse percurso, todas as mães se deparam com a realidade — por vezes dura — de precisar conviver com os efeitos de suas decisões, enquanto continuam a sustentar o vínculo e o desenvolvimento do filho.

Se este recorte ajuda a nomear a complexidade da maternidade sem romantizar, compartilhe com alguém que precise dessa conversa — e marque organizações dispostas a aprender com essa forma de liderança.

Ninguém precisa de perfeição — e, se precisasse, não encontraria. O que realmente importa é a capacidade de retornar ao vínculo. A criança precisa de alguém que possa voltar, reparar, sustentar continuidade. A maternidade transforma porque revela dimensões adultas que permanecem invisíveis em outras esferas: a tolerância à frustração, a relação com autoridade, com renúncia, com reciprocidade e com a impossibilidade de controlar a totalidade da experiência do outro. Parte da função materna é reconhecer que o desenvolvimento da criança nem sempre corresponderá às suas métricas, tampouco às métricas da própria criança.

Há, porém, um descompasso estrutural difícil de ignorar: o mercado de trabalho segue pouco preparado para as necessidades das mães. Políticas existem no papel, mas a cultura organizacional frequentemente não integra a maternidade como dado de realidade. A maioria das vezes a maternidade ainda é vista como ruído ou “custo” de produtividade. Jornadas inflexíveis, reuniões em horários impraticáveis, avaliação baseada em presença e disponibilidade total, e a expectativa de performar como se nada mudasse após a chegada de um filho compõem um cenário de incompatibilidades simbólicas e materiais.

No universo corporativo fala‑se muito em liderança adaptativa, aprendizagem contínua e resiliência. Poucas experiências, porém, exigem tanta adaptabilidade quanto acompanhar um sujeito em desenvolvimento — alguém cuja existência depende da qualidade emocional, simbólica e material do ambiente que recebe. A maternidade é, nesse sentido, uma forma profunda de liderança humana: silenciosa e simbolicamente estruturante. Nem todas as mulheres são mães, mas muitas são. E não é coerente falar sobre mulheres sem reconhecer a complexidade da maternidade e seu impacto nas trajetórias femininas. Falar de mulheres no trabalho exige falar das mulheres que “maternam”.

Para aprofundar o tema com responsabilidade clínica e sem fórmulas fáceis, acompanhe meus textos no LinkedIn e no blog. Se você é gestor(a) e deseja levar essa discussão para a sua equipe, envie uma mensagem direta.


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